Offline – Aprender a Desligar

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Dependência tecnológica

Três estruturas da nossa escola – Biblioteca Escolar, Projeto Educação para a Saúde e Serviços de Psicologia e Orientação – associaram-se, mais uma vez, refletindo sobre uma temática na ordem do dia que preocupa a sociedade, em geral, e pais e professores em particular pelas consequências inerentes, a dependência crescente e desregrada dos jovens (embora não exclusivamente, como sabemos) em relação à internet, na forma de jogos, redes sociais e vídeos, principalmente.

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Para além dos perigos associados, cuja importância não se descura e que já tem vindo a ser tratada na escola, quisemo-nos debruçar sobre a habituação que leva a que os jovens, cada vez desde mais cedo, permaneçam tantas horas frente a um ecrã, em diversos formatos, de tal modo que passam a evidenciar sinais mais ou menos alarmantes do que, em última instância, se poderá vir a assumir como uma dependência.  Em termos estatísticos, considere-se que Portugal está em 2º lugar no ranking de 25 países europeus no consumo e acesso à internet, mais uma percentagem que duvidamos constitua necessariamente motivo de orgulho.

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A questão é tanto mais alarmante que a Organização Mundial de Saúde já considerou e declarou esta problemática uma perturbação psiquiátrica, com repercussões em todo o globo.

No sentido de avaliar/aferir a incidência desta questão na nossa comunidade educativa, nos nossos alunos, foram aplicados inquéritos às turmas do 4º ano de escolaridade e dos 2º e 3º ciclos de escolaridade, que nos permitiram apurar os resultados, dos quais destacamos os que a seguir se apresentam.

Ciclo de ensino Ver TV Jogar

(consolas, online)

Redes sociais Ouvir música
 

1º ciclo – 4º ano

 

1 a 3 h – 25%

+ de 3h – 10%

1 a 3 h – 21%

+ de 3h – 10%

—– —–

 

2º ciclo 1 a 3 h -24,6%

3 a 6h – 9,3%

+ de 6 h – 12%

1 a 3 h – 19%

3 a 6 h – 11,5%

+ de 6 h – 16%

1 a 3 h – 11%

3 a 6 h – 8%

+ de 6h – 11%

1 a 3 h – 17%

+ de 3h -15%

3º ciclo 1 a 3 h – 27%

3 a 6 h – 10%

+ de 6 h – 6%

1 a 3 h – 18%

3 a 6 h – 12%

+ de 6 h – 14%

1 a 3 h – 20%

3 a 6 h – 8%

+ de 6h – 11%

1 a 3 h – 26%

3 a 6h – 10%

+ de 6h -17%

 

Constata-se que o número de horas que crianças e jovens, sobretudo entre os 9 e os 15 anos, despendem diariamente em frente a um monitor é, de facto, preocupante, considerando o tempo livre de que dispõem (sem aulas) e em que estarão, em média, em casa. Para alguns, sobrará pouco mais do que o tempo de aulas para estar desconectado e nem sempre, em alguns casos, sem a supervisão e insistência dos professores. Se dúvidas houver, basta estar atento ao que acontece em nosso redor.

Verifica-se ainda um aumento de utilizadores das redes sociais ao nível do 3º ciclo, quando, todavia,  não deixa de surpreender a percentagem de horas que os utilizadores que se situam na faixa etária compreendida entre os 9 e os 12 anos declaram, quando sabemos que a idade mínima permitida por lei para abrir uma conta online é de 13 anos e só mentindo acerca da real idade tal poderá acontecer, tendo inclusivamente a União Europeia apresentado uma proposta para que passasse para os 16 anos. A efetivar-se, como calculamos, se não houver igualmente regras definidas de controlo, e mesmo existindo, de pouco ou nada adiantará.

Após esta análise e conclusões, expectáveis face ao contexto geral, as docentes envolvidas, professoras Cristina Silva e Lídia Correia, e as psicólogas escolares, Dra. Rita Lima e Dra. Rita Seco, delinearam um plano de intervenção e alerta, que passou por calendarizar algumas sessões de sensibilização para pais/encarregados de educação e para alunos, com o apoio das psicólogas escolares. Para a sessão com pais, convidamos a Dra. Ivone Patrão, psicóloga, professora e investigadora no ISPA- Instituto Universitário, que trabalha na primeira consulta de dependência de Internet no país, que funciona no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que escreveu recentemente o livro #geração-cordão sobre as gerações que estão dependentes das novas tecnologias e que que dirigiu vários estudos no país a este propósito.

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A mesma fez questão de destacar alguns dos sinais de alarme relativamente ao que poderá ser considerado aceitável no contexto atual, no que concerne à utilização das tecnologias, remetendo para a percentagem nacional de casos considerados de dependência, na ordem dos vinte e cinco por cento, existindo percentagens ainda mais alarmantes em países como a China e o Japão (superior a 45%), em que a própria fisionomia de um número significativo de utilizadores denota já deformações ósseas.

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A maior parte dos casos em acompanhamento são, sobretudo, de rapazes em absentismo escolar, com perturbação do sono, sem projetos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico e social e não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

A Dra. Ivone fez ainda um convite de consciencialização para o modelo que os pais estão a passar aos filhos, reforçando a importância do exemplo, realçando a importância do diálogo com os filhos desde pequenos,  discutindo o tema em família e estabelecendo regras e limites para todos.

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Questões como “A tecnologia passou a controlar as nossas vidas? Conseguirão os nossos jovens algum dia desligar?  Como pais, que modelos estamos a passar? E a escola, qual o papel a desenvolver?” deverão continuar a ser levantadas e fruto de reflexão, no sentido de se procurar não só uma consciencialização como, principalmente, formas de atuação que previnam ou minimizem a possibilidade dos nossas crianças e jovens verem, a este nível, o seu futuro como cidadãos autónomos e independentes comprometido.  Esta foi a nossa contribuição, para uma causa que deve ser de todos e da qual não podemos nem devemos demarcar-nos.

Convidamos ainda os interessados a acederem ao link que disponibilizamos para assistirem à visualização de uma reportagem a propósito deste tema, apresentada no programa da RTP1 – “Linha da Frente”, que contou com a colaboração da Dra. Ivone Patrão (entre diversas outras entrevistas dadas por esta investigadora a vários órgãos de comunicação social) – https://vimeo.com/153112243

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