Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

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Em dia de celebrações…

Muito, e repetidamente, já se ouviu hoje louvar e celebrar a nossa pátria e as comunidades portuguesas espalhadas pelas diversas latitudes e longitudes. Missão tão bem cumprida pelo poeta que também faz parte da efeméride e que por tantas e tão distantes paragens andou e que eternizou  para o mundo na obra Os Lusíadas o louvor ao seu país e às suas gentes, que outrora (como agora?) não lho souberam reconhecer.

O dia 10 de junho assinala o dia provável da morte de Luís Vaz de Camões, em 1580.

Através de palavras de alguns dos seus pares, que de forma inigualável lhe prestam homenagem, aqui se regista o louvor  ao poeta que, mais não fora, hoje deveria ser também lembrado.

Camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu. E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

              Jorge de Sena

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co’o sacrílego gigante;

 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.

 

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.

 

Modelo meu tu és, mas… Oh, tristeza!…

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

 Bocage

 

Meu amigo, meu espanto, meu convívio,

Quem pudera dizer-te estas grandezas,

Que eu não falo do mar, e o céu é nada

Se nos olhos me cabe.

A terra basta onde o caminho pára,

Na figura do corpo está a escala do mundo.

Olho cansado as mãos, o meu trabalho,

 

E sei, se tanto um homem sabe,

As veredas mais fundas da palavra

E do espaço maior que, por trás dela,

São as terras da alma.

 

E também sei da luz e da memória,

Das correntes do sangue o desafio

Por cima da fronteira e da diferença.

E a ardência das pedras, a dura combustão

 

Dos corpos percutidos como sílex,

E as grutas do pavor, onde as sombras

De peixes irreais entram as portas

Da última razão, que se esconde

Sob a névoa confusa do discurso.

 

E depois o silêncio, e a gravidade

Das estátuas jazentes, repousando,

Não mortas, não geladas, devolvidas

À vida inesperada, descoberta,

E depois, verticais, as labaredas

Ateadas nas frontes como espadas,

 

E os corpos levantados, as mãos presas,

E o instante dos olhos que se fundem

Na lágrima comum. Assim o caos

Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia

Ou diria o meu espanto, se dizê-las

Já não fosse este canto.

             José Saramago

 

 

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